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A emergência dialítica que não precisava de diálise

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Dr. Josué Vieira

Médico Nefrologista, com 11 anos de atuação em emergência e UTI

CRM-MS: 14123
RQE: 8359 (Clínica Médica)
RQE: 8519 (Nefrologia)

RESUMO

O caso do bexigoma que ensinou uma das lições mais importantes da nefrologia

Quando os exames parecem encerrar a discussão

Existe uma cena que se repete inúmeras vezes nas emergências. O médico recebe os exames laboratoriais, olha rapidamente para os números e, em poucos segundos, forma uma hipótese diagnóstica e um plano terapêutico. Em muitos casos isso funciona bem, sem dúvidas. Em outros, entretanto, pode ser exatamente o caminho que leva ao erro.

Esse final de semana eu estava de plantão quando recebi um paciente transferido como emergência dialítica. A recomendação da unidade de origem era iniciar hemodiálise assim que ele chegasse ao hospital. E, honestamente, quando olhamos os exames pela primeira vez, era difícil não entender o motivo daquela conclusão.

Tratava-se de um paciente anúrico, com creatinina de 12 mg/dL, ureia acima de 200 mg/dL, potássio de 7,5 mEq/L, acidose metabólica, edema periférico e pressão arterial em torno de 200 X 100 mmHg.

Exame de creatinina sérica realizado na unidade de origem mostrando uma função renal estimada praticamente irrisória em um paciente que já se encontrava em anúria Na prática isso configurava uma IRA KDIGO 3 anúrica Ou seja não era apenas creatinina alta Era a expressão laboratorial e clínica da forma mais grave de injúria renal aguda queda crítica da função renal associada à ausência de diurese

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Gasometria realizada na unidade de origem demonstrava acidose metabólica moderada e hipercalemia grave Em um paciente anúrico esse conjunto é preocupante Mas antes de concluir que o rim simplesmente parou uma pergunta precisa ser feita ele é verdadeiramente anúrico Ou está produzindo urina mas não consegue eliminá la por uma obstrução Na injúria renal aguda essa diferença muda tudo

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Se eu projetasse esses dados isoladamente em um slide de aula e perguntasse para uma plateia de estudantes qual seria a próxima conduta, provavelmente a maioria responderia: diálise.

Mas a medicina tem um problema fascinante. Os pacientes não chegam ao hospital carregando apenas exames. Eles chegam carregando uma história. E frequentemente essa história é muito mais importante do que os números impressos no papel.

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A pergunta mais importante não era quanto estava a creatinina

Quando recebo um caso de lesão renal aguda grave, existe uma pergunta que considero mais importante do que qualquer valor laboratorial.

Não é: Quanto está a creatinina?.

É: Por que a creatinina chegou até aqui?

Pode parecer um detalhe semântico, mas essa mudança de perspectiva altera completamente a forma de raciocinar.

A creatinina elevada não é a doença em si. Ela é apenas a consequência laboratorial visível da doença. Se você tratar apenas a consequência sem compreender o mecanismo que a produziu, corre o risco de combater a fumaça enquanto ignora o incêndio.

Foi exatamente isso que comecei a investigar naquele momento.

Ao reconstruir a história clínica, descobri que o paciente possuía diagnóstico de hiperplasia prostática benigna havia cerca de 12 anos. Segundo ele, os sintomas haviam melhorado depois que iniciou alguns tratamentos alternativos. Entretanto, à medida que a conversa avançava, ficou evidente que o problema nunca desapareceu de verdade.

Na realidade, ele simplesmente havia se acostumado com a progressão lenta da doença.

O jato urinário tornou-se mais fraco ao longo dos anos. O esforço miccional havia aumentado gradualmente. A sensação de esvaziamento incompleto era frequente. Levantar-se durante a noite para urinar já fazia parte da rotina.

Nenhuma dessas alterações ocorreu de forma abrupta. Foram surgindo lentamente, quase de maneira imperceptível. E justamente por isso o paciente passou a enxergá-las como algo normal.

Até que a fisiologia decidiu mostrar que aquilo não era normal coisa nenhuma.

A ultrassonografia de rins e vias urinárias trouxe a peça que faltava Havia hidronefrose bilateral volumoso bexigoma com debris em seu interior e sinais de hiperplasia prostática benigna Ou seja aquele paciente não era simplesmente anúrico Ele produzia urina e tinha obstrução funcional crônica até deixar subitamente de eliminá la O bexigoma definia o mecanismo da injúria renal aguda IRA pós renal por obstrução infravesical Na prática antes de correr para a diálise era preciso olhar para o caminho da urina

O momento em que a compensação chegou ao limite

Dois dias antes da admissão hospitalar, o paciente realizou uma longa viagem trabalhando como motorista. Passou aproximadamente 36 horas sentado ao volante. Durante esse período desenvolveu uma retenção urinária aguda importante. O resultado foi esse enorme bexigoma oligossintomático.

Aqui vale a pena fazer uma pausa para compreender o que acontece fisiopatologicamente nesse cenário.

Muitas vezes os estudantes aprendem que a lesão renal pós-renal representa apenas uma pequena parcela dos casos de injúria renal aguda. Isso é verdade. Entretanto, justamente por ser menos frequente, ela às vezes recebe menos atenção do que deveria.

Quando uma obstrução significativa impede a drenagem urinária, a pressão dentro do sistema coletor aumenta progressivamente. Essa pressão é transmitida para os túbulos renais e reduz o gradiente necessário para a filtração glomerular. O resultado é uma queda abrupta da taxa de filtração glomerular.

O rim passa então a reter praticamente tudo aquilo que deveria eliminar.

Retém potássio. Retém água. Retém ureia. Retém creatinina. Retém ácidos.

O paciente torna-se hipertenso, congesto, hipercalêmico e urêmico.

Em outras palavras, passa a apresentar exatamente o mesmo conjunto de alterações laboratoriais que associamos intuitivamente à necessidade de terapia renal substitutiva. Não raramente o aumento da creatinina sérica é súbito e intenso, duplicando e quadruplicando em questão de 24-48h.

Mas existe uma diferença crucial. Nesse caso, o problema não era uma falência renal irreversível. O problema era uma obstrução mecânica potencialmente reversível. E isso muda completamente a interpretação e abordagem terapêutica do quadro.

O bexigoma por obstrução infravesical é uma causa relativamente frequente e muitas vezes negligenciada de injúria renal aguda Em homens não raro existe uma nefropatia obstrutiva crônica de fundo geralmente associada à hiperplasia prostática benigna A próstata aumenta lentamente A obstrução progride em silêncio O paciente se acostuma com sintomas urinários leves jato fraco hesitação noctúria urgência sensação de esvaziamento incompleto Enquanto isso a função renal pode ir caindo de forma lenta e traiçoeira Até que em algum momento ocorre a obstrução completa Aí o quadro muda de marcha anúria súbita bexigoma volumoso hidronefrose bilateral e aumento galopante da creatinina Não era apenas o rim que parou Era urina presa E na IRA pós renal reconhecer isso cedo pode mudar completamente a história

Quando a fisiologia começa a contar outra história

Antes da transferência, a equipe da unidade de origem realizou uma sondagem vesical de demora. Foram drenados imediatamente cerca de 1,5 L de urina hematúrica.

Durante o transporte, aproximadamente mais um litro. Quando o paciente chegou à emergência, já haviam sido eliminados cerca de 2,5L. Enquanto eu realizava sua admissão, saiu mais um litro. Naquele momento, o paciente havia produzido aproximadamente 3,5 L de urina em poucas horas.

E foi então que algo chamou minha atenção. Os exames mostravam um paciente anúrico. Mas o paciente que estava na minha frente já não era anúrico. Os exames mostravam um paciente congesto. Mas os edemas estavam desaparecendo. Os dados históricos da evolução mostraram um paciente hipertenso. Mas a pressão arterial começava a cair espontaneamente.

Perceba o que estava acontecendo. Os exames estavam descrevendo o passado. A fisiologia estava mostrando o presente. E, quando existe conflito entre os dois, é a fisiologia que deve guiar o raciocínio clínico.

Observe a urina com aspecto de hematúria macroscópica no saco coletor Após a drenagem de um bexigoma volumoso isso pode ocorrer pela distensão acentuada do epitélio vesical com sangramento após a descompressão o chamado sangramento <em>ex vacuo<em> Outro ponto importante esse paciente evoluiu com poliúria após a desobstrução Isso não é raro em nefropatia obstrutiva crônica A obstrução prolongada pode causar lesão túbulo intersticial e reduzir a resposta do ducto coletor ao ADH como uma espécie de diabetes insipidus nefrogênico funcional Resultado depois que a urina finalmente encontra saída o paciente pode urinar muito Na IRA pós renal desobstruir é só o começo Depois disso é preciso vigiar diurese volemia e eletrólitos de perto

O erro de tratar uma fotografia e ignorar o filme

Uma analogia que gosto de utilizar com os residentes é a seguinte.

Os exames laboratoriais e mesmo sua avaliação clínica pontual são fotografias. A doença é um filme. Uma fotografia mostra apenas um instante congelado. Já o filme revela a direção para a qual a história está caminhando. Foi por isso que pedi imediatamente uma nova gasometria e novos exames laboratoriais. Eu queria entender a trajetória daquele paciente. Queria uma nova fotografia. Poucas horas após a desobstrução, o potássio havia caído de 7,5 para 4 mEq/L. A acidose metabólica havia desaparecido. 6 horas depois, a creatinina já havia reduzido de 12 para aproximadamente 8 mg/dL. A ureia caiu cerca de 30%. A hipertensão grave desapareceu. A congestão desapareceu. A emergência dialítica simplesmente deixou de existir. Não porque realizamos uma intervenção sofisticada. Mas porque corrigimos a causa do problema.

Nova gasometria arterial coletada após a desobstrução O que vemos agora é a reversão da acidose metabólica e da hipercalemia Ou seja as emergências dialíticas estavam desaparecendo diante dos nossos olhos Horas antes o paciente parecia caminhar para diálise urgente Mas a causa da injúria renal era pós renal A urina não tinha parado de ser produzida Ela estava presa E quando o caminho foi reaberto a fisiologia começou a fazer o que a fisiologia sabe fazer muito bem corrigir o desastre

Por que a diálise poderia ter feito mais mal do que bem?

Esse ponto é particularmente importante.

Muitas vezes pensamos na diálise apenas pelos seus benefícios. Porém toda intervenção médica possui riscos. E ignorar esses riscos pode transformar uma boa intenção em uma má decisão.

Se tivéssemos iniciado hemodiálise naquele momento, o paciente provavelmente precisaria de um cateter venoso central. Isso significa risco de sangramento, trombose, infecção e complicações mecânicas.

Além disso, existe um aspecto fisiopatológico frequentemente negligenciado.

Após a desobstrução urinária, muitos pacientes desenvolvem poliúria pós-obstrutiva. Isso ocorre porque os túbulos renais tornam-se temporariamente incapazes de concentrar adequadamente a urina. Em parte, isso decorre de alterações na resposta ao ADH induzidas pela obstrução prolongada.

O resultado é um paciente que pode eliminar litros e litros de urina nas horas ou dias subsequentes.

Agora imagine retirar volume pela hemodiálise enquanto o próprio rim já está eliminando enormes quantidades de água.

O risco de hipovolemia, hipotensão, hipoperfusão renal e agravamento da lesão tubular torna-se evidente. Paradoxalmente, a intervenção realizada para ajudar poderia retardar a recuperação renal.

Hemodiálise é uma técnica de depuração extracorpórea Mas é bom lembrar que ela substitui apenas parcialmente as funções excretórias do rim e não faz isso sem riscos Pode ser necessária Pode salvar vidas Mas não deve ser tratada como reflexo automático diante de uma creatinina alta Neste caso após a desobstrução o próprio rim voltou a depurar O paciente descongestionou eliminou ácido reduziu potássio e começou a derrubar as escórias nitrogenadas Ou seja o órgão responsável pela depuração mostrou com dados clínicos e laboratoriais que havia retomado sua função de modo eficaz Nesse cenário iniciar uma terapia extracorpórea deixava de fazer sentido Às vezes a melhor diálise é aquela que você evita porque corrigiu a causa certa

A grande lição que esse paciente deixou

<em>Primum non nocere <em>Primeiro não cause dano Uma das lições mais antigas da medicina continua absolutamente atual nem toda intervenção possível é uma intervenção necessária Às vezes o melhor cuidado é não adicionar terapias desnecessárias Não atrapalhar uma fisiologia que já voltou a funcionar Não transformar um problema em resolução em um novo problema iatrogênico Neste caso o rim já havia mostrado sinais claros de retomada da depuração após a desobstrução Insistir em diálise naquele momento não seria prudência Seria excesso E em medicina excesso também machuca

Ao final daquele plantão, a principal lição não era sobre hiperplasia prostática, nem sobre bexigoma, nem sequer sobre injúria renal pós-renal.

A verdadeira lição era sobre raciocínio clínico. Exames laboratoriais não indicam diálise. Quem indica diálise é a fisiopatologia do paciente. Uma creatinina de 12 mg/dL pode significar necessidade imediata de terapia renal substitutiva em um contexto e absoluta desnecessidade dela em outro.

O mesmo vale para a ureia, para o potássio e para praticamente qualquer marcador laboratorial que utilizamos diariamente. Por isso, diante de uma possível emergência dialítica, a pergunta mais importante nunca deve ser qual o valor desse ou daquele exame laboratorial.

A pergunta fundamental é:

A causa da disfunção renal continua presente ou o organismo já iniciou espontaneamente sua recuperação?

Porque quando a natureza devolve ao paciente um rim capaz de depurar continuamente, 24 horas por dia, mesmo sem estar no ápice de sua função, corrigindo eletrólitos, eliminando volume e recuperando progressivamente a fisiologia em desequilíbrio, talvez a melhor decisão não seja acrescentar mais tecnologia. Talvez a melhor decisão seja simplesmente reconhecer que a fisiologia já está resolvendo o problema.

E ter sabedoria suficiente para não atrapalhá-la.

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